
A gestão de pessoas em um cenário cada vez mais marcado pela convivência entre diferentes gerações foi tema de uma das palestras do segundo dia do Circuito Lidera Cartório 2026, realizado pela Associação dos Notários e Registradores do Brasil (Anoreg-BR), em parceria com a Confederação Nacional de Notários e Registradores (CNR) e o Grupo Txai. A palestra foi conduzida pela diretora de educação, consultora e sócia do Grupo Txai, Roberta Barossi, que abordou os desafios enfrentados pelos gestores dos serviços extrajudiciais diante das transformações no perfil dos colaboradores e das novas exigências do mercado de trabalho.
Logo no início, Roberta destacou que a liderança contemporânea exige adaptação constante e abandono de modelos ultrapassados de gestão. “Hoje não existe mais receita pronta. Temos quatro gerações convivendo no mesmo ambiente de trabalho e isso exige que o líder esteja em permanente evolução. Ser líder não é apenas querer fazer o básico; é buscar entregar sempre o melhor que se pode oferecer para a equipe”, afirmou.
Durante a apresentação, a consultora diferenciou os conceitos de chefe e líder, ressaltando que o modelo baseado exclusivamente em autoridade e controle já não atende às necessidades das equipes atuais. “O chefe trabalha pelo comando e pelo medo. Já o líder inspira, engaja e caminha junto com sua equipe. Isso não significa abrir mão da autoridade quando necessário, especialmente em situações que envolvem cumprimento de normas e legislação. O equilíbrio entre firmeza e inspiração é o que faz a diferença”, explicou.
Outro ponto destacado foi a responsabilidade crescente dos gestores em relação à saúde mental dos colaboradores, especialmente após as recentes mudanças normativas que ampliaram o olhar sobre os riscos psicossociais nas organizações. “O comportamento do líder pode ser um dos maiores fatores de risco dentro de uma organização. Nunca se falou tanto sobre saúde mental como agora. Por isso, a forma como lideramos impacta diretamente o ambiente de trabalho e os resultados da equipe”, alertou.
Liderança pelo exemplo
Ao longo da palestra, Roberta reforçou que as equipes refletem o comportamento de seus líderes. “A equipe é sempre o reflexo do líder, para o bem ou para o mal. Quando o gestor participa, apoia e demonstra comprometimento, as pessoas tendem a fazer o mesmo. O líder não precisa executar todas as tarefas, mas precisa estar presente e mostrar que está junto”, observou.
A consultora também enfatizou a importância do feedback contínuo e do acompanhamento próximo dos colaboradores. “As pessoas esperam que seus líderes contribuam para o seu desenvolvimento. O feedback é uma ferramenta essencial para isso. Muitas vezes, o que parece óbvio para o gestor precisa ser dito de forma clara para quem está recebendo a orientação”.
O desafio das novas gerações

Um dos momentos de maior interação com o público ocorreu durante o debate sobre as diferenças entre as gerações Baby Boomers, X, Y, Z e Alfa, e seus reflexos no ambiente de trabalho. Segundo a palestrante, compreender essas diferenças é fundamental para evitar conflitos e aumentar o engajamento das equipes. “A geração Z chegou trazendo novos valores e novas prioridades. Qualidade de vida, propósito e equilíbrio entre vida pessoal e profissional têm um peso enorme para eles. Não adianta lutar contra essa realidade; precisamos aprender a lidar com ela”, afirmou.
A expositora destacou ainda que a chamada “mentoria reversa” tem se mostrado uma ferramenta eficiente para promover a integração entre profissionais de diferentes idades. “Os mais experientes têm muito a ensinar sobre responsabilidade, experiência e visão de longo prazo. Os mais jovens trazem agilidade, domínio tecnológico e novas formas de enxergar o mundo. Quando existe troca, todos ganham”.
Recrutamento mais estratégico
Outro tema amplamente debatido foi a necessidade de aprimorar os processos de recrutamento e seleção nas serventias. Para Roberta, é fundamental que os cartórios deixem claras suas expectativas já nas etapas iniciais de contratação. “É preciso explicar exatamente como funciona o ambiente de trabalho, quais são as regras, as responsabilidades e as perspectivas de crescimento. Quanto mais transparente for esse processo, maiores serão as chances de contratar pessoas alinhadas com a cultura da serventia”.
Ela também recomendou o uso de entrevistas por competências, capazes de identificar comportamentos e habilidades além das qualificações técnicas. “Mais do que perguntar se a pessoa sabe fazer determinada atividade, é importante entender como ela reage diante de desafios, conflitos e situações reais do dia a dia”.
Desenvolver pessoas é prioridade
Encerrando a palestra, Roberta defendeu que uma das principais funções da liderança é investir no desenvolvimento dos colaboradores. “O líder precisa dedicar tempo para ensinar, orientar e acompanhar. Muitas vezes, os gestores ficam presos à operação e deixam de desenvolver pessoas. Quando isso acontece, o crescimento da equipe também fica limitado”.
A consultora concluiu reforçando a importância de transmitir propósito aos profissionais que atuam nos cartórios. “Quando o colaborador entende que não está apenas registrando documentos, mas ajudando pessoas a concretizar sonhos, proteger patrimônios e garantir segurança jurídica, o trabalho ganha outro significado. E é isso que gera engajamento verdadeiro”.